Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Vênus marrom

Algo que me impressiona bastante é a ruindade da imprensa brasileira. Talvez seja daqueles casos em que você alega que algo é ruim no Brasil por mais que seja universal. Lembro que, quando morava na Irlanda, algo que me impressionava bastante era a total falta de noção da imprensa britânica e irlandesa. Para exemplificar: um belo dia, uma das principais chamadas de um jornal de horário nobre supostamente sério era "Charlotte Church: ela canta como um anjo, mas ela bebe feito um gambá (tradução aproximada para drink like a fish)". No entanto, como estou aqui, critico o que é daqui. É parte da brincadeira.

Não assisto muito os jornais televisivos. Mas essa quarta, por preguiça de mudar de canal depois do jogo do Corinthians (nem falo nada, respeitarei o luto, mas prometo tirar sarro em breve), presenciei a ruindade do jornalismo global. A chamada era algo como: "Ministro da Fazenda faz ameaças ao povo brasileiro caso a CPMF não seja prorrogada". O William Waack não perdeu tempo na hora de descer o cacete no Guido Mantega por "fazer ameaças" - o ato em si não é necessariamente algo condenável, espera-se âncoras com alguma opinião. Em linhas gerais, ele dizia que Mântega havia ameaçado (a palavra é essa mesma) cortar gastos na área de saúde e aumentar impostos caso perdesse no senado, conduta nada digna de um ministro. Afinal, um ministro de estado não pode sair ameaçando o povo e a oposição.

Mas o que Mantega falou - e isso foi exibido na própria matéria - era, basicamente, uma previsão do que o governo faria sem a renda da CPMF. O repórter foi lá e perguntou: "seu Mantega, a batata tá assando e o governo pode perder essa verba aí. Vai fazer o quê?" O ministro respondeu, de forma educada, os dois possíveis cenários: um, o corte de gastos na área de saúde e no Bolsa Família, o outro, o aumento de impostos. Natural, perde-se verba, cortam-se gastos ou aumentam-se impostos. A reação poderia ser diferente, poderiam ser cortadas verbas do PAC, ou enxugados gastos com qualquer outra coisa, mas o fato é que essa era a reação prevista segundo o Ministério da Fazenda de um governo democraticamente eleito - reação absolutamente questionável, mas um ato politicamente legítimo.

No entanto, a Globo colocou a afirmação do ministro como uma ameaça, nessa exata palavra. Ameaça. A impressão que deu foi a de que Guido Mantega subiu num palanque e gritou: "galera do PSDB e (caham caham) Democratas (hihihihi), votem com a gente ou eu vou subir impostos, cortar gastos de saúde, envenenar suas hortaliças e comer as suas bundas, UAAAAHAHAHAHAHAAAAA (risada maligna)". Que tipo de jornalismo é esse que inventa ameaças de forma tão descarada e despudorada? O mínimo que se espera de qualquer jornal, seja ele de esquerda, direita, oposição ou situação, é que se respeite suas fontes. E isso é muito pior do que uma distorção, ou uma manipulação; é desrespeito puro, modificar absolutamente o sentido de uma ação normal, esperada.

Talvez antiético ou até mesmo criminoso sejam adjetivos bastante contundentes, mas prefiro outro: ruim. É, esse adjetivo fraco, pouco claro, mas bastante objetivo: isso mostrou o trabalho de jornalistas ruins.

Em primeiro lugar: quando você quer mentir ou distorcer uma informação, tenha ao menos a decência de fazer direito. Oras, o Mantega apareceu dizendo o que ele ia fazer na tela, falando num tom normal, explicando didaticamente o que seria feito. E qualquer imbecil com meio neurônio esclerosado entendeu a mensagem: "eu sou o representante do governo e, caso surja esse cenário, é assim que o governo vai agir". E qualquer imbecil com meio neurônio esclerosado sabe que nada do que ele falou foi extraordinário; um governo tem como uma de suas funções montar o orçamento, cabe ao congresso aprová-lo ou não. Não há nada de ameaça aqui. E isso, acreditem, foi ao ar. Porra, vocês são muito burros, com todo o respeito!

Segundo, isso foi um ato claro de desespero. Um desespero tão grande, mas tão grande, que impediu que uma crítica decente fosse feita. Tanto o repórter quanto o âncora poderiam ter questionado o seguinte: por que essas áreas especificamente vão ser afetadas? Por que o partido do governo do qual o ministro atualmente faz parte foi tão radicalmente contra a CPMF quando esta foi criada, se ela tem um peso tão crucial no orçamento? Existe muito a ser criticado na defesa ferrenha do governo ao seu imposto para que se critique algo que simplesmente não existiu.

É importante dizer que não defendo a CPMF, muito menos a posição do Guido Mantega. Acredito que, como em diversos assuntos recentes, o posicionamento do governo e da maioria da oposição é de um cinismo que beira o ridículo. Primeiro o governo: o PT foi contrário a CPMF desde que ela surgiu. Agora que chegou ao poder, mudou radicalmente de posição e colocou que ela é um mal necessário. Oras, se ela é um mal necessário, porque se opuseram tão radicalmente no início? Das duas, uma: ou não sabiam analisar o orçamento, ou estavam simplesmente sabotando o governo anterior. E, em ambos os casos, uma retratação seria o mínimo.

Já a oposição (excetuando-se aqui, obviamente, os que mantiveram um posicionamento claro ao longo dos anos, como o PSOL e alguns outros gatos pingados), que em grande parte estava na situação na criação do imposto, é muito pior. Aqui não há margem de dúvida: é bandidagem pura. Se é um imposto inútil, por que criaram? E, se criaram, porque querem extingui-la justo agora, no conveniente momento no qual são opositores? Ou são corruptos ou estão tentando sabotar o governo. Dessa gente mesquinha espera-se tudo; o bem do Brasil, definitivamente, não está na sua agenda.

Independente disso, a manutenção ou o término da CPMF evidentemente criam diferentes cenários na política econômica do governo. E o que o William Waack espera do governo? Que ele simplesmente mantenha o mesmo orçamento com ou sem CPMF? Que o Guido Mantega pague a diferença com o cachê que sua filha ganhou para fazer poses sensuais? A atuação da Globo, novamente, atingiu um ponto onde não há justificativa possível para tamanha distorção, falta de ética e, principalmente, burrice. Até porque o brasileiro não é tão burro quanto parece. Não a ponto de comprar tamanho absurdo jornalístico - ou, pelo menos, é isso que eu espero.

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Começando bem o dia

Eu preciso, todo dia, fazer uma boa ação e uma má ação. É uma questão de se sentir humano, está fora do meu alcance, na verdade. Sempre que eu acordo eu sei, por fato, que eu vou machucar alguém. É aquele tipo de coisa que mantém a balança cósmica equilibrada. Ou só um pouco de sadismo, sei lá. O fato é que eu prefiro ser cruel com quem merece; se eu vou passar energias negativas, que seja para quem precisa de energias negativas pra ficar esperto.

Estava dirigindo tranqüilamente, dentro daquilo que nós humanos apelidamos de limite de velocidade, sem muita pressa e com bastante mau-humor quando uma perua filha da puta dirigindo um Pegeout resolve colar no meu Twingo. Não dava para ela ultrapassar, não dava para eu ir mais rápido, então eu fiz o que era sensato: abaixei para metade do limite de velocidade só pra sacanear a cuzona.

Um parenteses: de todas as pessoas ruins, genocidas, neonazistas, coxa-brancas, traficantes de escravos, cafetões, o inventor do telemarketing e socialites, provavelmente o pior tipo é filho da puta que cola na bunda do meu Twingo de manhã cedo. Nada me tira mais do sério. Você pode maltratar crianças, você pode colocar seringas infectadas com aids em assentos aleatórios no cinema, você pode chutar cachorros e colocar gatos no microondas, tô cagando e andando, agora, NÃO COLE NA BUNDA DO MEU CARRO, SEU FILHO DA PUTA, SE NÃO VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO.

Até uma hora que acabou a rua, e nós dois viramos na rápida. Eu peguei a pista do meio, ela a da direita. Mas... ah, por que não voltar pra pista da direita? Acelerei fundo e fechei a vagabunda. Ela foi pra outra pista. Fechei a vadia de novo. E a gente foi indo assim, da direita para o meio, do meio para a esquerda, da esquerda para o meio até que surgiram duas opções: seguir meu rumo ou foder com a vida da puta bucetuda até Colombo, Tamandaré ou seja lá onde aquela rua fosse dar. Como eu já estava meio atrasado, resolvi jogar o carro em cima, dessa vez quase acertando a vagaba (e se acertasse, que se foda, prefiro perder a carteira e o carro do que ter uma filha da puta dessas achando que é dona da rua) e virei na Augusto Stresser.

Me arrependi. Quase voltei para perseguir a boqueteira.

Depois de sacanear bastante uma filha da puta dessas, fiquei com o humor levinho, levinho, pronto para tratar bem as pessoas que eu gosto, dar moedinhas para pivete de rua e ajudar velhinhas a atravessar a rua. Tomara que a gente se encontre de novo, e se ela acabar carbonizada, assumo o homicídio culposo numa boa.

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Vou sumir por alguns dias. Estou indo viajar e não pretendo ficar postando enquanto estou fora, por motivos óbvios. Não chorem, eu volto ainda esse mês.

Domingo, Novembro 04, 2007

Agüentei 21 anos... quantos mais agüentaremos?

Eu estou fazendo 21 anos. Talvez isso não seja importante, e de fato não é. É o tipo de data que apenas te lembra de algumas coisas que você esqueceu de dizer, de fazer, de completar. Nada além disso.

Sempre quis escrever sobre aquilo que eu creio ser a essência do ser humano, mas nunca tive coragem de me aventurar dentro de tudo isso. Não é exatamente aquele medo de ser ridicularizado, ou mesmo o medo de ser incompreendido. É algo mais profundo; o medo de não ter a habilidade de dizer o que realmente acredito. De adentrar um universo tão hermético e complexo que um ser humano jamais conseguiria sozinho desvendar seu funcionamento. Eu sei que, com essas palavras, eu apenas conseguirei arranhar a superfície da questão. Talvez, se tiver sorte, reproduzir um discurso qualquer.

Eu sou guiado pela urgência. Volta e meia, nas situações menos prováveis, me lembro de um único e simples dado estatístico: eu sou um absurdo. Você é um absurdo. Todos nós somos absurdos. O fato de estarmos aqui, desse jeito, é de uma probabilidade tão ridiculamente mínima que nós carregamos conosco uma responsabilidade tão imensa que nenhum corpo jamais poderia suportar. E é essa barreira que nos impede de ser livres: a própria responsabilidade de ser.

Isso não é exatamente um conceito novo. Kundera falava disso, Sartre também. Mas isso me deixa encantado e, de certa forma, amedrontado toda vez que me dou conta de sua existência. O fato, único e simples, é que todo ser-humano é um entre bilhões de espermatozóides fundidos com um entre quatrocentos mil óvulos produzidos por dois corpos distintos, cada qual formado por esse mesmo processo. É mais fácil ganhar na loteria, morrer num acidente de avião ou ser atingido por um piano enquanto você caminha pela rua do que simplesmente existir. Ao mesmo tempo que nós somos apenas um em seis bilhões, uma casualidade da existência, nós somos um "sim" em zilhões de "nãos", um milagre do destino.

É normal se guiar pela própria existência, acho que todos nós às vezes julgamos o que há sob nosso nariz como verdade universal. E é um erro de imensa arrogância. Mas nisso eu sei que não erro: todo ser humano é guiado pela necessidade urgente de honrar esse absurdo estatístico. Alguns mais, outros menos. Mas todos nós somos, de alguma forma, abençoados pelo dom mais improvável de todos: existir. E, sendo assim, temos de honrar esse dom. Se você ganhasse na loteria, jogaria esse dinheiro no rio? Bom, a verdade para a grande maioria dos seres humanos, e por grande maioria eu quero dizer 99,9999%, é que nós, de fato, ganhamos na loteria, mas estamos enfiando o dinheiro no rabo esperando que surja uma mansão de lá.

Isso sempre me frustrou. Não de uma forma consciente, mas de uma maneira sutil, que guiou cada passo da minha vida. Eu passei 21 anos imaginando o que eu seria com 21 anos. Como eu aproveitaria esse dom divino de existir. Nunca cheguei a uma conclusão e, sinceramente, acho que nunca chegarei. Seria o grande passo o amor de uma mulher? Uma grande obra? Conquistar a América do Sul, a Ásia e mais um continente a minha escolha? Sei lá. Talvez seja esse o sentido de existir; estar sempre em dúvida, estar sempre frustrado. Viver é possuir permanentemente uma dúvida no coração, que não é exatamente o seu propósito, pois isso é irrelevante, mas sim o que você poderia fazer a partir disso. O que você poderia fazer melhor do que a combinação dos bilhões de espermatozóides com os milhares de óvulos de seus pais faria.

Sinceramente, partindo do princípio que eu nasci, gosto de imaginar que eu sou a melhor combinação possível. Tirando meus irmãos, claro.

Eu acordo sempre com exatamente o mesmo sentimento. Às vezes mais, às vezes menos, mas é sempre a mesma coisa: hoje será mais um dia no qual eu não chegarei mais perto de atingir essa meta. Não é pessimismo, é angústia. Eu tenho, sempre que acordo, um plano. Sei o que vou fazer, em linhas gerais, nesse dia. Na maioria deles, algo de impensado cruza meu caminho, mas ainda assim estou longe do objetivo maior. Ou, pelo menos, é isso que me parece. Essa angústia de estar vivo mas não estar cumprindo o meu próprio destino parece guiar todas as minhas ações. Fico ansioso com qualquer besteira. Me sinto aliviado quando me livro de qualquer tarefa maior. Quero mais descanso. Mais ação. Mais qualquer coisa, sempre mais. Não é arrogância, é apenas a busca por esse ideal maior. Um ideal maior que nós tentamos descobrir sempre que acordamos, mas nunca temos clareza suficiente para decidir qual é.

Imagino que toda produção intelectual humana se baseie nisso. Cada tentativa de nos expressarmos é uma tentativa de descobrir, afinal, o que é essa angústia. O que temos de fazer. Qual é nossa missão depois de, a partir de um universo de zilhões de gametas, termos virados seres humanos. O ser mais poderoso que já pisou nesse planeta. Talvez em todo universo.

Mas eu sou apenas um em seis bilhões de seres humanos. Sabe-se lá quantos já estão mortos. Eu tenho apenas 21 anos. O que eu posso dizer sobre isso?

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Osso duro de roer, filme duro de assistir

SPOILER ALERT: não leia esse texto se você não viu e pretende ver Tropa de Elite.

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Não gosto de ficar dando opinião sobre assuntos que todo mundo já deu alguma opinião. Acho repetitivo. Seria bem mais simples deixar isso pra lá, copiar um parágrafo de um texto, outro de outro e ter meus pensamentos vocalizados nas palavras de formadores de opinião mais conceituados e melhores (ou não) que eu. É uma questão de conforto, nada além disso. Mas dessa vez vou quebrar minha própria regra e tecer meus comentários quase virginais (no sentido de que eu me recusei a ler qualquer coisa sobre o assunto, exceto o texto do Sandoval) sobre Tropa de Elite. Me recusei a ler tais opiniões para não estragar o filme; não existe nada mais chato que isso. Então, vambora.

Tropa de Elite não é necessariamente fascista; é simplesmente (e pobremente) maniqueísta. Se utiliza de tipos simplificados e estereotipados para construir uma história de vingança, tão antiga quanto Hamlet, mas infinitamente mais pobre e mal contada. A diferença é que o mais nobre dos príncipes não botava o estado em função do sua briga pessoal - apesar de ser tão maníaco, desvairado, violento, perigoso e deprimente quanto o tal do Capitão Nascimento.

Os amantes do filme e fãs do Capitão não cansam de dizer que esse é um símbolo da justiça, que o crime tem que ser combatido assim, e etc, etc, etc. Oras, em que momento do filme o Capitão faz alguma coisa de positiva? Em que momento ele veio solucionar o crime? Tudo nele são frases de efeito vazias, que não correspondem a nenhuma ação concreta. A grande missão do Capitão é matar o Baiano. Mas por quê? É para solucionar o crime na favela? É para deixar o Rio de Janeiro mais seguro? Não, é apenas uma vingança. Ele quer vingar um companheiro morto e reestabelecer a moral de seu batalhão, nada além disso. Para isso, tortura meia favela (inocentes inclusos) e deixa um batalhão inteiro em risco. Esse tipo de mentalidade escrota é solução para o crime? Se o poder público acha que sim, que a auto-defesa, a vingança e a matança à la Rambo atirando antes de perguntar por si só vão fazer alguma coisa além de piorar a situação, me mando para o Uruguai agora.

A tal "verossimilhança" da qual tantos falam chega a ser patética, especialmente quando se fala da classe média. A representação chega a ser constrangedora de tão superficial. Só vem a reforçar um discurso manjado e besta de que estudante é tudo bitolado e descolado da realidade. Esse pseudo-espiral da opinião demonstrado na cena pífia da apresentação do trabalho (na qual todo mundo olha para o aspirante Matias como se ele fosse um alienígena por ele defender que existe uma necessidade na existência de policiais e que nem todos os policiais são corruptos) é absolutamente fantasioso, as pessoas que freqüentam algum curso superior não tem uma opinião tão homogênea e muito menos tão superficial e ridícula do tipo "todo policial é ruim, eles me revistaram uma vez quando eu fui pra Caiobá e eu fiquei com medo".

Como filme, Tropa de Elite peca em diversos aspectos. Apesar de ser muito bem filmado e editado, o roteiro é fraco. Aparentemente, a história gira em torno da indecisão de Capitão Nascimento ao escolher seu substituto. No entanto, o roteiro acaba focando demais nas histórias dos substitutos, ficando a dúvida sobre quem é, realmente, o protagonista. Além disso, a narração em off chega a irritar. É tanto blábláblá, tanta lição de moral, que fica a impressão de que o roteirista não teve a capacidade de contar a história com imagens. Ou seja, teve uma imensa dificuldade na hora de fazer cinema.

No final, Tropa de Elite serve para reforçar alguns valores mais do que sedimentados por idiotas: toda ONG serve pra proteger bandido, todo estudante é comunistinha filhinho de papai que sobe o morro pra fumar maconha, consciência social é coisa de desocupado e a solução para o país é o Wagner Moura metendo bala em todo mundo. Pelo menos podemos afirmar que esse é um filme que sintetiza bem a mentalidade de grande parte da população brasileira.

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Alguém me pediu para resenhar o disco novo do Radiohead. Farei uma resenha sintética: melhor que o Amnesiac, pior que o Hail to The Thief, a última música é muito foda, Radiohead perdeu um pouco a capacidade de surpreender mas continua sendo uma das melhores bandas da paróquia. Posso aprofundar isso depois, mas agora eu estou cansado.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Tem cocô na minha película

Tem certas pessoas que parecem ter o toque de Midas. Qualquer coisa, sob qualquer circunstância, fica legal sob sua batuta. Richard Linklater, por exemplo: o cara foi fazer um filme sobre o amor, o tema mais fácil de se escorregar em todo o universo, e soltou Antes do Amanhecer. Foi falar sobre sonhos, saiu Waking Life. Foi dirigir um filme tipo sessão da tarde sobre crianças que fazem música e criou Escola do Rock, um filme que tinha absolutamente tudo para ser horrível e é genial.

O que fazer quando um cara desses lança um filme novo, sobre a indústria alimentícia americana? O que esperar? Um puta filme, suponho eu...

Nada. Fast Food Nation, dirigido por Linklater, é um dos piores filmes que eu já vi. Sério, é uma atrocidade, um atentado ao mundo do cinema. Para começar, o roteiro: o que dizer de um filme onde o protagonista simplesmente desaparece no meio do filme? O cara simplesmente diz "falou" e não aparece mais o filme inteiro? Sério, até um cachorro cego, surdo e mudo sabe que o que sustenta o filme são os protagonistas! Além disso, as falas são absolutamente forçadas (o diálogo sobre libertar as vaquinhas é me deu uma vergonha alheia imensa...), as histórias não são concluidas decentemente, metade dos personagens não tem função alguma na trama e... porra, meu, o protagonista desaparece sem deixar notícias, isso já é suficiente para afundar qualquer filme!

Depois, as atuações. Os atores parecem ter sido retirados de peças de quinta-série. Uma das cenas mais bizarras é a de um personagem que morre no meio do deserto - ele morre e nunca mais se toca no assunto, diga-se de passagem. O cara está andando normalmente, tem uma convulsão e cai. E a cara que ele faz é sensacional! Parece que ele está sendo estuprado por um babuíno! Ah, sim, quase esqueci: Avril Lavigne faz um dos milhares de personagens inúteis. E, não, ela não tem talento para ser atriz (tudo bem que ela não tem talento para ser cantora também, mas vá lá, ao menos ela tem atitude, ela come baratas e fica bêbada com freqüência... isso é suficiente para se dar bem no mundo da música). Candidata fortíssima para o prêmio framboesa, anota aí!

Se isso já não fosse o suficiente, a trilha sonora é de um mau gosto tão grande, mas tão grande que eu não consigo mensurar. É simplesmente absurdo.

Foi anunciada uma comédia dirigida pelo Lars Von Trier. Richard Linklater dirigiu um filme vergonhosamente ruim. O Paraná e o Juventude estão próximos de serem rebaixados, depois de anos e anos como figurantes eternos da primeira divisão. O PSDB critica vorazmente a CPMF. Só digo uma coisa: corram para as montanhas, o fim está próximo!

(e evite a tentação de conferir se eu estou certo em meu julgamento do filme do Linklater... sério mesmo)

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Sim, eu passei uma cara sem postar. Não, eu não vou linkar geral hoje, mas prometo fazer isso mais tarde.

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Radiohead! Radiohead! Radiohead!

O último post desse blog foi absolutamente impensado e criado na onda de euforia do momento. Eu já sabia desse lançamento há uns dois dias (quando foi anunciado, não sei se foi dia primeiro ou dia 31), mas o fato de tê-lo encomendado gratuitamente para o dia dez me deixo até meio tonto. Não deu para perceber todo o simbolismo quixotesco desse lançamento, muito menos discorrer sobre a sagacidade de Thom, Jonny, Colin, Ed e Phil (baterista sempre por último). Só deu para balbuciar algo como "a única banda importante ainda ativa e boa (não considero os Stones uma banda ativa, é tipo o Romário) vai lançar disco novo e é de graça". O que, por si só, já é muita coisa.

O que aconteceu, e que provavelmente todo mundo já sabe, é o seguinte. O Radiohead, após um silêncio mortal desde o lançamento de Hail To The Thief em 2004, saiu da toca da seguinte maneira: "aí, galera, demos um pé na bunda da nossa gravadora, estamos lançando um disco novo e duplo daqui a dez dias, bjosmeliga, Jonny". E mais: não só a maior banda dos nossos tempos está lançando um disco novo como ele é legalmente gratuito. Você pode baixá-lo no site oficial, mediante pagamento da quantia que você achar que eles merecem. É, isso mesmo, você baixa e você escolhe o preço! Como explicitado no post anterior, achei a quantia de £0,00 bem razoável e já encomendei o meu. No dia 10, eles te (me) mandarão um e-mail com um login e uma senha para entrar lá e baixar a bagaça. Claro, eu poderia muito bem baixar no eMule alguns minutos depois, mas baixar o disco de graça dessa maneira "oficial" dá um caráter quase romântico à transação. Até porque eu estarei ouvindo essa porra no dia do lançamento, o que é mais ou menos glamouroso.

E quem quiser um disco bonitinho, você pode pagar £40,00 (dá uns 150, 200 reais) e receber os CDs, uma versão em vinil e os respectivos encartes no conforto de sua casa. Reza a lenda que o Thom Yorke esfrega cada cópia na virilha pessoalmente, mas eu não confirmo. Não, eu não tenho £40,00 pra emprestar, vá no banco, ô fio da puta.

Foi mais uma jogada de mestre na carreira do Radiohead. Mais uma prova de que eles não são mais uma banda, apenas, e sim leitores visionários desse momento da indústria cultural. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que passamos por um momento crítico na música pop, onde o antigo sistema de escravidão do artista a uma indústria parece desabar tijolo por tijolo com a possibilidade da troca de arquivos pela internet. O que vem depois ainda é um mistério, várias tentativas vem sendo desenvolvidas tanto pela própria indústria quanto pelos artistas, mas o fato é que gravar um disco, mandar fazer sei lá quantas cópias e soltar nas lojas cada vez mais é coisa do passado. A relação, cada vez mais, ocorre entre artista e público e, mais ainda, público e público, sem a necessidade de intermediários como gravadores, distribuidores, vendedores (o que é uma pena, nada mais legal que uma loja de discos) e divulgadores.

Ainda assim, entrar nesse "novo esquema" não beneficia os já estabelecidos. É óbvio que quem ainda lucra nesse esquema tradicional não vai correr atrás de alternativas antes da água bater na bunda. Exatamente o caso do Radiohead: se eles lançassem um disco hoje, venderiam horrores como de costume. Estamos falando de uma banda que chegou ao primeiro lugar das paradas com um dos discos mais estranhos da história da música pop, Kid A. Sem esforços, só gravar e correr pro abraço. Que nem o U2, lança o disco, faz os shows lotados, discursa pela paz no mundo e vamo que vamo.

Mas os caras foram espertos o suficiente para, ao mesmo tempo, conquistar total e irrestrita liberdade artística (não que eles não a tivessem antes, se eles lançassem um disco com os sons do Thom Yorke cagando na boca de um bode, vendiam um milhão fácil), conquistar o respeito e a admiração do público, mostrar ao mundo novas possibilidades de fazer da música um produto cultural possível perante as novas tecnologias (o que não é, necessariamente, algo bom) e ainda lucrar um pouco em cima disso. Claro, muito mais trabalho. Mas quem se importa com isso quando você está caminhando para um lugar mais do que honroso na história da arte? Estamos falando de glória, substantivo tão subestimado nos dias de hoje. Os caras estão buscando a glória definitiva. Não basta encher o cu de dinheiro e ser um bostinha tipo o mala do Chris Martin, a existência tem que exigir algo mais de alguém com o talento deles.

Óbvio, eles não fariam isso se fosse uma banda iniciante, mesmo que tivessem a idéia e o talento. Por quê? Oras, quanto você acha, em primeiro lugar, que custa gravar um disco? É uma idéia arriscada. As chances de se perder muito dinheiro na brincadeira são grandes. Que tipo de babaca pagaria para baixar um disco de uma banda desconhecida quando poderia simplesmente esperar cair no eMule e baixar de graça? Mas não para o Radiohead; muita gente vai pagar para ter direito a ouvir no primeiro dia, não duvido nada que aparecerá casos bizarros de gente doando £500,00, £1000,00. E, sinceramente, quem não vai pagar nada por isso, não pagaria de jeito nenhum. Coberto os custos de gravação, o resto é lucro líquido. Eu garanto, eles vão ter lucro.

Isso também garante o respeito e a admiração do público pela banda. Ao adotar essa postura perante sua obra, abri-la ao público sem nenhuma concessão, o Radiohead garante mais pontos com sua legião de fãs, e com os fãs de música em geral. Apesar dessa ação não ser exatamente franciscana, é uma atitude bonita, mesmo sob o prisma de que eles vão lucrar de qualquer maneira. Além disso, isso demonstra uma certa cumplicidade entre a banda e sua obra e seus fãs. É como comprar um CD na barraquinha da banda local depois do show; você sente que está fazendo parte de tudo aquilo, que essas músicas são um pouco suas também.

Além disso, a banda ainda abre novas possibilidades para selos menores, bandas menos respeitadas. Nesse primeiro momento, só uma banda como Radiohead poderia lucrar dessa maneira. Mas e daqui há alguns anos? Será que o mercado da música poderia funcionar assim? É uma alternativa ótima; garante uma possibilidade econômica para os artistas sem alimentar uma cadeia que impede a expressão de muitos. Só é preciso achar uma solução viável para baratear os custos de produção de um disco, o que, na realidade, já aparece no horizonte como possibilidade. Claro, o mercado da música muda radicalmente com tudo isso, e muita gente (desde o dono da gravadora que lucra com a overdose do seu ídolo até o engenheiro de som que trabalha dezoito horas por dia para alimentar a família) teria seu ganha pão em risco; mas será que não seria uma alternativa mais justa? É uma pergunta que fica em aberto, mas torcemos para que sim.

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Só pra não dizer que não falei nada, os Smashing Pumpkins lançaram um disco quase da mesma maneira (você não tinha a opção de pagar, era de graça ou nada) há seis anos: Machina II. É um bom disco, bem aquém dos Pumpkins clássicos, mas tem Let Me Give The World To You que é indiscutivelmente a música mais fofa não composta pelo Belle & Sebastian dos últimos tempos.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Notícias importantes

Radiohead está lançando disco novo.

Radiohead está lançando disco novo... para download.

Radiohead está lançando disco novo... para download pago.

Radiohead está lançando disco novo... para download pago, mas você escolhe o preço.

Radiohead está lançando disco novo... para download pago, mas você escolhe o preço e zero é um preço possível.

Acabei de comprar meu CD novo do Radiohead por zero libras.

Eu sei que isso é uma forma de afirmar que nada fora do sistema funciona, e de que a industria fonográfica tem razão na luta contra os downloads gratuitos, e que, na real, eu não tenho nenhum argumento válido além de "sou fiodaputa mesmo" para defender meu roubo ao patrimônio do Radiohead. Mas eu ando gastando muito dinheiro com besteira. Logo, não posso doar cinco ou dez libras aos caras do Radiohead, que já são mais ricos que eu, de qualquer maneira. Tenho que economizar para as minhas bobagens (tipo um livro de receitas que eu dei de presente para a Julia hoje).

Um camarada acaba de me dizer que mp3 não gera emprego, não tem encarte, é altamente perdível, portanto não deve ser pago. Faz sentido. Ok, achei um argumento válido para pagar zero libras.

Dia 10 eles liberam o download. Até lá, mistério.

Radiohead está lançando disco novo... para download pago, mas você escolhe o preço e zero é um preço possível. Mas -100 não. Porém, você pode tentar bater a carteira do Thom Yorke, ou roubar a TV do Jonny Greenwood.

Heróis da nomenclatura

Já expliquei aqui o motivo pelo qual o futebol brasileiro é superior aos outros. Agora vejam como se portam as equipes preocupadas com o nosso futuro. Veja as escalações da fantástica seleção de Melgaço/PA e do Sporting de Barbacena, do mesmo estado:

Primeiro, o Melgaço:
André; Na Cuia, Gringo, Lema e Gildo; Rato, Elton, Piteira e Soiá; Jovem e Dinaldo. Técnico: Zumbi.

Depois, o Sporting:
Nei; Melhoral, Valdeci, Meio-Quilo e Dedé; Euler, Vartúlio, Cosita e Nhanhá; Zezé e Tocantins. Técnico: sei lá, importa? Bom, se for um nome tão engraçado como Zumbi, importa.

O fato é que ambos os times arrancaram honrosos empates do Paysandu essa semana. E, o mais importante, ensinaram ao mundo como que se dá nome a um jogador de futebol. Pô, vai dizer que o Melhoral cruzando para o Nhanhá não é bem mais legal que o Diego Silva cruzando para o Thiago Souza?

Domingo, Setembro 30, 2007

Por que não fazer nada

Um dia em 1971 o Keith Richards estava muito chapado... perai, isso é um começo do tipo "um fã de Coldplay meio afeminado", o Keith Richards chapado é mais do que um pleonasmo. Mas enfim, um dia o cidadão acima referido acordou de ressaca e decidiu não gravar. Não tava com saco para isso. Não o culpo, já desmarquei compromissos por estar ressacado algumas vezes na minha vida. Naquele mesmo dia, os Stones estavam terminando de gravar a faixa que encerraria seu melhor disco até então, Sticky Fingers (e quem discordar, vá tomar no meio do rabo, Sticky Fingers é cientificamente melhor do que qualquer coisa que eles - ou os Beatles - produziram antes), batizada de Moonlight Mile - segundo alguns, mais uma daquelas músicas sobre substâncias químicas nocivas ao organismo e potencialmente divertidas que você jamais diria que é sobre algo "do mau", o que seria plenamente plausível, levando em conta que a maioria das músicas desse disco são comprovadamente sobre elas.

Mais tarde, foram ouvir como tinha ficado a versão final e... a guitarra do Keith Richards não estava lá! O pato véio, com preguiça de tocar, falou "ah, deixa assim mesmo, tá mais que bom". O resultado foi a música mais bonita da carreira da banda. Talvez não a melhor, Shine A Light, Rocks Off e Paint It Black me dão, no mínimo, alguma margem para a dúvida, mas é de longe a coisa mais bonita que os Stones ousaram gravar. Arrisco dizer que é a música mais bonita que eu já ouvi, levando em conta que os Stones foram a melhor banda que eu já ouvi.

(essa música é do mesmo disco que Wild Horses, cara. Wild Horses, porra, se alguém tem a capacidade de fazer algo mais bonito que Wild Horses, merece ao menos um posto de presidente vitalício do universo)

É por essas e outras que o Keith Richards é um dos meus maiores ídolos. Até quando o cara não faz porra nenhuma o cara é um gênio! Se coçando o saco ele bota os Beatles na sacola, imagina tocando...

E, já que falei nisso, achei um vídeo do Flaming Lips tocando Moonlight Mile. É, tipo, o som e a imagem estão horríveis. E o Wayne Coyne teria que viver uns 200 mil anos para ter o talento do Mick Jagger, assim como qualquer outra pessoa do mundo. Mas, vá lá, é ao menos curioso.


Terça-feira, Setembro 25, 2007

Pimp My Sopa

Eu me considero um Ferran Adriá da classe média baixa. Talvez mais por me entediar com cozinhar/esquentar comida do que por realmente gostar de cozinhar. É tão chato colocar arroz, feijão, bife e batata no microondas, ou fazer um miojo de galinha caipira às 5 da manhã... sei lá, parece que não existe nenhum desafio, nenhuma barreira a ser quebrada, nada de novo. Portanto, é sempre necessário achar algum tempero inusitado para deixar o bagulho mais divertido.

Sopa é uma diversão à parte. O primeiro episódio de Pimp My Sopa foi na casa do Nicola. Tinha sopa aquele dia, e ele me ofereceu uma pimenta italiana pra dar uma calibrada no negócio.

-Quer uma pimenta italiana?
-Pimenta italiana, puta troço de viado.
-Ah, cara, não fala merda. Essa pimenta é forte pra caralho.
-É o caralho. Todo italiano é viado, comida italiana é mó frescura de viado. Eu como pimenta mexicana com o zóio, meu filho.
-Cuidado, cara, essa pimenta é forte.
-É o caralho.
-Piá, cê colocou muita pimenta.
-Coloquei nada. Deixa eu botar um pouco mais.
-To avisando.
-Eu entendi, porra. Eu sou macho, caralho.

O fato é que eu nunca tinha colocado tanta pimenta por metro cúbico de alimento. E a pimenta realmente era forte pra caralho.

-Cara, joga essa sopa fora.
-Tá boa. Tá boa. Pimentinha de viado.

(usei uns 5 litros de sopa para diluir aquilo)

Depois disso, nunca mais tomei sopa sem modificá-la de alguma maneira. Sempre que tem sopa eu gosto de colocar outra coisa líquida que deixe o negócio mais interessante. Geralmente piora, mas esse não é bem o ponto. O negócio é sentir sabores de maneiras que você nunca ousou imaginar.

Hoje a receita foi uma porrada de molho inglês, pimenta árabe e molho de gergelim. Não deu muito certo. Eu achei que o molho inglês fosse shoyo, era um vidrinho preto, só fui perceber a cagada quando a sopa ficou com gosto de bosta. Usei o molho de gergelim mais para quebrar o gosto horrível do que para pimpar a sopa. E funcionou, aquele molho salva até vida se for preciso.

Próxima tentativa é tentar criar um azeite que dilua na sopa. Adoro azeite, adoro sopa, adoro azeite na sopa, mas o fato do azeite ficar suspenso sempre me deixa meio frustrado. Seria legal também um azeite com gosto de gergelim. Adriá, se estiver lendo esse blog, anote tudo isso, será importante para que desenvolvas um pouco do seu lado tosco. Todo mundo tem um lado tosco.

(em breve, Pimp My Pão de Queijo, com os caras da Excelência do Pão)