Vênus marrom
Não assisto muito os jornais televisivos. Mas essa quarta, por preguiça de mudar de canal depois do jogo do Corinthians (nem falo nada, respeitarei o luto, mas prometo tirar sarro em breve), presenciei a ruindade do jornalismo global. A chamada era algo como: "Ministro da Fazenda faz ameaças ao povo brasileiro caso a CPMF não seja prorrogada". O William Waack não perdeu tempo na hora de descer o cacete no Guido Mantega por "fazer ameaças" - o ato em si não é necessariamente algo condenável, espera-se âncoras com alguma opinião. Em linhas gerais, ele dizia que Mântega havia ameaçado (a palavra é essa mesma) cortar gastos na área de saúde e aumentar impostos caso perdesse no senado, conduta nada digna de um ministro. Afinal, um ministro de estado não pode sair ameaçando o povo e a oposição.
Mas o que Mantega falou - e isso foi exibido na própria matéria - era, basicamente, uma previsão do que o governo faria sem a renda da CPMF. O repórter foi lá e perguntou: "seu Mantega, a batata tá assando e o governo pode perder essa verba aí. Vai fazer o quê?" O ministro respondeu, de forma educada, os dois possíveis cenários: um, o corte de gastos na área de saúde e no Bolsa Família, o outro, o aumento de impostos. Natural, perde-se verba, cortam-se gastos ou aumentam-se impostos. A reação poderia ser diferente, poderiam ser cortadas verbas do PAC, ou enxugados gastos com qualquer outra coisa, mas o fato é que essa era a reação prevista segundo o Ministério da Fazenda de um governo democraticamente eleito - reação absolutamente questionável, mas um ato politicamente legítimo.
No entanto, a Globo colocou a afirmação do ministro como uma ameaça, nessa exata palavra. Ameaça. A impressão que deu foi a de que Guido Mantega subiu num palanque e gritou: "galera do PSDB e (caham caham) Democratas (hihihihi), votem com a gente ou eu vou subir impostos, cortar gastos de saúde, envenenar suas hortaliças e comer as suas bundas, UAAAAHAHAHAHAHAAAAA (risada maligna)". Que tipo de jornalismo é esse que inventa ameaças de forma tão descarada e despudorada? O mínimo que se espera de qualquer jornal, seja ele de esquerda, direita, oposição ou situação, é que se respeite suas fontes. E isso é muito pior do que uma distorção, ou uma manipulação; é desrespeito puro, modificar absolutamente o sentido de uma ação normal, esperada.
Talvez antiético ou até mesmo criminoso sejam adjetivos bastante contundentes, mas prefiro outro: ruim. É, esse adjetivo fraco, pouco claro, mas bastante objetivo: isso mostrou o trabalho de jornalistas ruins.
Em primeiro lugar: quando você quer mentir ou distorcer uma informação, tenha ao menos a decência de fazer direito. Oras, o Mantega apareceu dizendo o que ele ia fazer na tela, falando num tom normal, explicando didaticamente o que seria feito. E qualquer imbecil com meio neurônio esclerosado entendeu a mensagem: "eu sou o representante do governo e, caso surja esse cenário, é assim que o governo vai agir". E qualquer imbecil com meio neurônio esclerosado sabe que nada do que ele falou foi extraordinário; um governo tem como uma de suas funções montar o orçamento, cabe ao congresso aprová-lo ou não. Não há nada de ameaça aqui. E isso, acreditem, foi ao ar. Porra, vocês são muito burros, com todo o respeito!
Segundo, isso foi um ato claro de desespero. Um desespero tão grande, mas tão grande, que impediu que uma crítica decente fosse feita. Tanto o repórter quanto o âncora poderiam ter questionado o seguinte: por que essas áreas especificamente vão ser afetadas? Por que o partido do governo do qual o ministro atualmente faz parte foi tão radicalmente contra a CPMF quando esta foi criada, se ela tem um peso tão crucial no orçamento? Existe muito a ser criticado na defesa ferrenha do governo ao seu imposto para que se critique algo que simplesmente não existiu.
É importante dizer que não defendo a CPMF, muito menos a posição do Guido Mantega. Acredito que, como em diversos assuntos recentes, o posicionamento do governo e da maioria da oposição é de um cinismo que beira o ridículo. Primeiro o governo: o PT foi contrário a CPMF desde que ela surgiu. Agora que chegou ao poder, mudou radicalmente de posição e colocou que ela é um mal necessário. Oras, se ela é um mal necessário, porque se opuseram tão radicalmente no início? Das duas, uma: ou não sabiam analisar o orçamento, ou estavam simplesmente sabotando o governo anterior. E, em ambos os casos, uma retratação seria o mínimo.
Já a oposição (excetuando-se aqui, obviamente, os que mantiveram um posicionamento claro ao longo dos anos, como o PSOL e alguns outros gatos pingados), que em grande parte estava na situação na criação do imposto, é muito pior. Aqui não há margem de dúvida: é bandidagem pura. Se é um imposto inútil, por que criaram? E, se criaram, porque querem extingui-la justo agora, no conveniente momento no qual são opositores? Ou são corruptos ou estão tentando sabotar o governo. Dessa gente mesquinha espera-se tudo; o bem do Brasil, definitivamente, não está na sua agenda.
Independente disso, a manutenção ou o término da CPMF evidentemente criam diferentes cenários na política econômica do governo. E o que o William Waack espera do governo? Que ele simplesmente mantenha o mesmo orçamento com ou sem CPMF? Que o Guido Mantega pague a diferença com o cachê que sua filha ganhou para fazer poses sensuais? A atuação da Globo, novamente, atingiu um ponto onde não há justificativa possível para tamanha distorção, falta de ética e, principalmente, burrice. Até porque o brasileiro não é tão burro quanto parece. Não a ponto de comprar tamanho absurdo jornalístico - ou, pelo menos, é isso que eu espero.

